ENTREVISTA | Luís Pedro Pinto, vencedor concurso ampliação Sede da Ordem Arquitectos

— 31.05.2020

Luís Pedro Pinto, arquitecto vencedor do concurso para a ampliação da Sede da Ordem dos Arquitectos, explica o projecto que concebeu, no centro histórico de Lisboa. Num Cais do Sodré expurgado da vida do passado e das suas gentes, era preciso partir de uma ruína à beira do colapso para conceber uma ligação com as várias preexistências.


O arquitecto fala, também, da relevância do concursamento público.



Por que razão decidiu participar no concurso?

O Concurso para o projeto de ampliação da sede da Ordem dos Arquitectos era especial.

Para os arquitetos, pela possibilidade de verem crescer a “sua” Casa, consolidando-a no espaço público, e pela oportunidade de participação ativa num debate de arquitectura importante para a cidade, num local epicentral da história de Lisboa.

O projeto que apresentei, e do qual fui vencedor, tentou honrar esta oportunidade, respondendo à possibilidade de, passados quase 30 anos do concurso para a Sede da Associação dos Arquitectos Portugueses, poder fazer parte desta história feliz.

Pode descrever de que forma procurou incorporar a sua proposta nas preexistências, dadas as condicionantes de partida?

O edifício existente em ruína, local da intervenção, esteve e está em eminente colapso. A degradação do conjunto levou-me a questionar sobre a mais valia da sua demolição integral. Porém, o conhecimento da sua classificação, como Conjunto de Interesse Público, desencorajou tal pensamento.

Assim, aceitei o essencial da fachada pré-existente, a sua materialidade, na estimação da sua essência, com os seus vãos de cantarias de arco completo, as suas deformações do tempo; e a resposta deste projeto foi a recusa de uma mera “fachadização” procurando uma leitura crítica do existente, mantendo só o essencial e necessário a esta nova realidade que se propôs.

Estas paredes deverão ser mantidas, pelo exterior, no seu estado atual, sem pinturas, limpezas ou “liftings” (apenas garantindo tecnicamente a sua não desagregação). Elas transportarão consigo as suas memórias, os cartazes colados, os grafitis ou pinturas antigas, reforçando um contraste claro com um edifício novo e imaculado pousado em cima.

Como é que a zona e local de implantação definiu a proposta?
O contexto em que este edifício se insere tem sofrido uma rápida e expressiva requalificação do edificado: os prédios passaram quase todos a ter “cara lavada”. Hoje são hotéis e apartamentos de luxo e as pessoas “transformaram-se” em turistas, que, entretanto, despareceram com a Pandemia... A cultura popular e “underground” que sempre povoou o Cais do Sodré foi rapidamente sendo afastada, resultado de um processo económico incorporado pelas políticas urbanas que levou a uma clara higienização social.

Este projeto tenta, nas suas possibilidades, contrariar isso, seja pelo programa seja pela ideia de “manter” a ruína reconhecível nas suas várias histórias, nos seus vários tempos. Remetendo a pré-existência opaca para um embasamento matérico de contacto tátil com a rua e com os assuntos da rua.

Mas a proposta deparou-se, principalmente, com a obrigação, feliz, de se relacionar e interagir com o Edifício Sede, e, assim, pareceu-me que a melhor forma de o fazer, de construir uma ampliação, é enfatizar uma relação volumétrica autónoma, garantindo a autonomia formal aos 2 edifícios: a Sede e o Anexo.

Um dos critérios do concurso era a «eficiência funcional». Como é que resolveu este tema no seu projeto e qual o maior desafio relativo ao programa proposto a concurso?
O programa do concurso definia 3 grandes áreas destintas com metragens muito idênticas: Cafetaria; Sala polivalente; e Salas de formação. Assim, e considerando a área possível de implantação, rapidamente cheguei a uma divisão por piso do programa, em 3 pisos.

No Piso 0, cafetaria/ restaurante, no piso 1, sala polivalente, e as 2 salas de formação no piso 2. A clareza desta distribuição é também reforçada por um núcleo central, capaz de albergar os acessos, sejam eles escadas, elevador, bem como os apoios aos pisos: arrumos, instalações sanitárias.

O maior desafio não foi tanto o programa proposto de espaços físicos encerrados mas, sim, a qualificação e potencialização do logradouro, pois sempre me pareceu que o redesenho dos seus limites para proporcionar uma área digna ao espaço exterior entre a Sede e o novo projeto, seria a chave da solução.

A cafetaria será o centro e “âncora” entre edifício existente e o proposto. Como é que pensou e concebeu esta centralidade?
Tirando partido da diferença de cota existentes, cerca de 1 metro, entre a soleira do Edifício Sede e a cota da rua da Ribeira Nova. O piso 0 proposto é também ele desnivelado nessas 2 mesmas cotas.

Isto permitiu colocar na cota da rua da Ribeira Nova, a Cafetaria/ Restaurante com uma relação visual física proporcionada pelos vãos das cantarias existentes, possibilitando assim a este espaço uma posição privilegiada e de destaque com a rua.

Na cota superior, a ligação com o edifício Sede é estabelecida por uma passagem coberta, verde, mais ou menos opaca, capaz de garantir um atravessamento coberto, protegido da chuva, entre os dois edifícios.

Também aqui o redesenho do logradouro com as suas 2 funções, esplanada da cafetaria e plataforma de estar e distribuição entre os dois edifícios tentou marcar uma nova centralidade.

Qual a sua opinião sobre as condições de contratação dos concursos de concepção que a OASRS tem assessorado?
Os concursos que a Ordem tem assessorado têm sido, na minha opinião, exemplares. Não digo isto por ter sido premiado neste, o que não aconteceu nos 2 concursos anteriores, que fiz recentemente e que, justamente, não venci; mas exemplares, porque, ao contrário da maioria dos Concursos Públicos promovidos em Portugal, o critério de escolha não é apenas centrado no valor mais baixo dos honorários ou num suposto currículo que, inevitavelmente, é gerador de um círculo vicioso que perpetua ideias e muitas vezes erros.

Estes Concursos Públicos assessorados pela OA, livres, grátis e abertos a todos os Arquitetos, jovens e menos jovens com obra feita e obra por fazer, têm conseguido relançar a discussão da disciplina e promover encomendas mais justas e, principalmente, mais Democráticas. Pena é que não seja o instrumento principal da Contratação Pública para a Arquitetura em Portugal!

No seu entendimento, qual a importância deste concurso para a Ordem dos Arquitetos?
Parece-me que este concurso teve uma importância grande para a Ordem dos Arquitetos uma vez que conseguiu, através do envolvimento de 66 equipas concorrentes, um processo de discussão e trabalho altamente participado, chamando ao debate várias gerações e várias sensibilidades da disciplina.

No entanto, todo este processo está ainda no início! Agora é necessário trabalhar no projeto para que a realidade da obra aconteça rapidamente e a importância do concurso seja cumprida!



Foto: Daryan Dornelles



Luís Pedro Pinto nasce em 1978, em Lisboa.

Fascinado pelas Cidades, licencia-se em Arquitectura na Universiade Lusíada de Lisboa.

Durante mais de uma década trabalha entusiasticamente em projetos da Bak Gordon Arquitetos. Na primavera de 2015, em consequência de uma inquetação natural, acha-se a tempo de continuar… mas a solo.

Em 2018 funda o STUDIO_LPP, onde trabalha hoje.


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