ENTREVISTA | MESA Atelier, vencedores do Concurso de Barrancos

Os MESA Atelier venceram o concurso público de concepção para a elaboração do projecto da Casa Mortuária de Barrancos, ao qual concorreram 91 propostas. A pedido da Secção Regional Sul da Ordem dos Arquitectos, que assessorou o concurso, os MESA falam sobre a solução encontrada para uma demanda que é rara.




A vossa equipa tinha já alguma vez projectado este tipo de equipamento? Que desafios se apresentaram para desenhar a Casa Mortuária?

Não, esse acabou por ser o desafio. Achamos que os edifícios e espaços fúnebres como: cemitérios, capelas mortuárias, crematórios não são muito explorados e desenvolvidos com o devido interesse em Portugal. Podemos afirmar que grande parte da investigação sobre o programa foi, acima de tudo, perceber o que poderia ser uma casa mortuária contemporânea.


Que informação e referências foram necessárias para responderem ao vosso mote “Construir com a paisagem”?

Na verdade, foi a visita ao lugar que tornou mais claras as nossas intenções de projecto. A par disso, se fizermos uma análise da história da arquitectura portuguesa, desde a sua génese até aos dias de hoje, encontramos vários exemplos disso mesmo: a adaptação e reinvenção dos modelos de intervir no território de acordo com um grande respeito pelos diferentes lugares e programas a que os arquitectos se propõem responder.


De que forma o efeito cenográfico acentuado, para quem está na Casa Mortuária, na relação estabelecida com a envolvente, foi importante? A Casa representa o ponto de confluência das paisagens circundantes?

Partindo do princípio de que o edifício não devia sobrepor-se à paisagem, mas sim integrar-se, achámos desde o início que este devia articular não só o programa, os acessos, mas que o mais importante seria ser ele próprio revelador da paisagem envolvente.


Como pensaram criar um efeito de ‘serenidade’ que pudesse sentir-se no interior do equipamento?

Se olharmos para a maioria dos aglomerados dispersos pelo interior do país, encontramos quase sempre escassez de recursos, recolhimento e isolamento em relação à paisagem, muito por forma a responder aos desafios do clima. Quisemos trazer um pouco desses ambientes para o interior do edifício, o que originou espaços interiores sóbrios e contidos, mas reconhecíveis pelas suas gentes, como se tratasse verdadeiramente de uma habitação.


Gostávamos que referissem quais os materiais escolhidos em projecto e razões.

Mais uma vez, foi a visita ao local que nos informou sobre as opções a tomar. Tivemos conhecimento que, em alguns aglomerados próximos, em Espanha, os muros de pedra de xisto com junta seca são patrimónios classificados.

Não quisemos perder a oportunidade de alertar para a necessidade da sua preservação como elemento caracterizador de um território em que estas estruturas fazem parte da sua cultura.

Nas habitações, abrigos e armazéns agrícolas que encontrámos ao longo da vila era comum ver matérias-primas naturais e de grande qualidade, tais como a pedra, a madeira e os revestimentos a cal tradicional, o que nos levou a propor que a nova Casa Mortuária de Barrancos fizesse parte dessa “família” de construções (como abordamos na memória descritiva da proposta).


O júri destacou, na sua apreciação ao vosso trabalho, uma forte componente crítica e de análise das condições preexistentes. Podem relacionar esta apreciação com os vossos trajectos e sensibilidades particulares? Qual a relação com o trajecto do vosso ateliê?

Apesar de todos sermos naturais de sítios tão distintos como o Douro, o Alentejo e o Algarve, temos em comum o percurso académico que passa por uma cidade do interior do Alentejo – Évora - e que está muito ligada, não só ao respeito pelos diversos territórios e paisagens que a envolvem, mas também pelos valores de cultura e da preservação responsável do património material e imaterial existente.


Embora a abordagem a cada projecto seja, em si mesmo, única, o que nos motiva são os valores do lugar. Essa motivação implica sempre uma grande investigação reconhecedora não só dos elementos físicos, mas também da cultura de cada lugar. A conjugação entre os dois (paisagem) permite definir estratégias válidas que nos permitem criar o elemento arquitectónico pretendido ou, por vezes, perceber a sua desadequação.


Qual a importância destes concursos para o estado da arquitectura atual?

Achamos que a plataforma Encomenda da OA veio ampliar a dimensão democrática dos concursos públicos em Portugal. Esta tem vindo a revelar a sua utilidade na forma simplificada como está desenvolvida para que a informação chegue a todos da forma mais plural possível. A transparência com que partilha também as classificações tem vindo a permitir divulgar novas equipas, abordagens e processos de trabalho distintos que acabam para contribuir para a diversidade e coerência do que conhecemos hoje como arquitectura portuguesa.


MESA Atelier, outubro 2019


Cortesia MESA Atelier


OS MESA são: João Varela (1991), Paulo Dias (1988) e Ana Isabel Santos (1990)



CV João Varela


CV Paulo Dias


CV Ana Isabel Santos