ENTREVISTA | Vencedor do concurso na Madeira: concurso é "exemplo notável para outros promotores"

— 10.08.2018


Nascido no Funchal e com uma relação "forte e presente" com a Ilha da Madeira, o arquitecto Marcelo Dantas, vencedor do Concurso para o Centro de Acolhimento de Crianças do Funchal, promovido pela Fundação Zino, com a assessoria técnica da OASRS, encontrou, na topografia do território, aquele que foi o maior desafio ao projecto que apresentou.


Mas se os "limites irregulares" do terreno não eram fáceis, a evocação da sua infância no arquipélago e as histórias da ocupação humana da ilha madeirense, ajudaram na reflexão que fez para dar corpo a um projecto que o júri distinguiu pela "clareza do tema da 'casa' como elemento gerador e identitário do projeto".


Sobre a iniciativa, rara numa entidade privada, de promover um concurso, é taxativo: é "um exemplo notável para outros promotores, públicos ou privados, que desejem escolher a melhor estratégia para a identificação da solução arquitectónica para os seus investimentos".


Pergunta - Porque decidiu participar?

Resposta - Apesar de, por motivos profissionais dos meus pais, ter saído da Madeira ainda criança, a minha relação com a Ilha manteve-se sempre muito forte e presente. É para as memórias antigas e recentes que de lá tenho, que, em qualquer projecto, o meu subconsciente foge à procura de um ponto de partida. Por tal procurei sempre participar em concursos de arquitectura para a Madeira, tendo ficado em 3º lugar no Concurso do Cais do Carvão e tido uma Menção Honrosa no Concurso para as Casas para as Ilhas Selvagens. Esta era uma nova oportunidade de pensar sobre esta Ilha. Acresceu a possibilidade de poder contribuir para o meritório trabalho da Fundação Cecília Zino, resolvendo este programa num terreno desafiante mas pleno de potencial para o fim a que se destina.


P - Qual a maior dificuldade que encontrou para projectar este edifício?

R - Tal como na generalidade da ocupação humana da Ilha da Madeira, a topografia do território é desafio e, frequentemente, solução. Num terreno de limites muito irregulares e com uma pendente de 33%, foi também esse o principal desafio na procura de uma racionalização funcional, construtiva e económica do projecto, que fosse compatível com a necessidade de promover um ambiente rico em espaços, vivências e oportunidades para as Crianças e para os colaboradores da Fundação.


P - Que pesquisa foi feita para criar este espaço?

R - Na sequência da resposta à pergunta anterior, o projecto iniciou-se com uma pesquisa sobre a história da ocupação humana da Ilha da Madeira, com notáveis exemplos de engenho e simplicidade para o transporte de água, modelação topográfica, criação de acessibilidades, ou até em algumas das grandes infra estruturas ou edifícios mais recentes. Numa relação mais directa com o programa e os seus utilizadores, apoiei-me em memórias de infância dos momentos de férias passados nas casas, quintais e na fazendas das casas dos meus familiares. Daí nasce a vontade de manter cerca de metade do terreno intocado, com os muros de contenção, as áreas de plantação, camalhões, levadas, etc. onde o cheiro da terra molhada, o ruído da levada ou a sombra (literal) das bananeiras promovem um saudável estar exterior, neste local privilegiado também pela forte relação visual com o mar. A esta reflexão sensorial foi acrescentada uma pesquisa sobre as tipologias de habitação típicas da ilha da Madeira como modo de construir uma referência de Lar para quem aqui encontrará o seu. Para apoio a esta pesquisa recorri a diversa bibliografia, da qual destaco o livro “Arquitectura Popular da Madeira” de Victor Mestre.


P - Quais os aspectos da arquitectura madeirense que pretendeu ressalvar/manter/valorizar?

R - O projecto procura integrar de forma contemporânea, sintética e harmoniosa diversos elementos identificados na pesquisa feita ou que já se encontram no local. Esta integração permite criar um distanciamento da envolvente urbana imediata, promovendo uma aproximação às construções de escala, programa e implantação semelhantes à pretendida, e que caracterizam as periferias dos núcleos urbanos e, sobretudo, as áreas rurais da Ilha. Destacam-se, através do conceito do projecto, a modelação do terreno com os muros de contenção em pedra basáltica e a vegetação que com eles contrastará, enquadrando toda a intervenção.

De forma mais subtil e focada no volume destinado aos quartos esta referenciação é mais formal, começando na sua implantação que remete para a ocupação dos Lombos madeirenses, onde alguma sobranceria sobre a vista se consegue através de uma relação por vezes inusitada com a topografia. No projecto esta relação é enfatizada pela procura de um equilíbrio entre o pouso no terreno e a libertação do mesmo. Ainda do ponto de vista do desenho deste volume, e para uma aproximação ao arquétipo de casa madeirense, há um esforço de controlo da sua escala, das suas proporções e da geometria das suas coberturas, num exercício rematado pela determinação da sua materialidade; o betão pigmentado encarnado, que procura também aproximar-se à cor das coberturas em telha e das fachadas pintadas em cores próximas a estas.


P - Qual a importância da encomenda privada para os arquitectos, para além da encomenda pública?

R - Mais do que ressalvar a importância da encomenda privada, gostaria de relevar a iniciativa e abertura da Fundação para o lançamento de um Concurso aberto para um projecto tão importante para o seu futuro próximo, assumindo esta como a estratégia ideal para o cumprimento dos seus objectivos. A grande qualidade das 16 propostas entregues e a diversidade de possibilidades e soluções apresentadas, atestam o enorme potencial que um programa aparentemente simples num terreno bastante condicionante podem gerar. A riqueza das respostas ao desafio é, também para mim, estímulo, aprendizagem e desafio para as fases seguintes do projecto. Pode, e deve, ser este um exemplo notável para outros promotores, públicos ou privados, que desejem escolher a melhor estratégia para a identificação da solução arquitectónica para os seus investimentos.


CV de Marcelo Dantas aqui