Manuel Gomes da Costa (1921-2016)

— 27.06.2016


O arquitecto Manuel Gomes da Costa, Membro Honorário da Ordem dos Arquitectos e uma figura incontornável da arquitectura contemporânea no Algarve, faleceu no passado dia 17 de Junho, em Faro, aos 95 anos.

«Na sua vasta obra e acção, Manuel Gomes da Costa soube assimilar a consciência de uma responsabilidade social no quadro de uma produção arquitectónica que tem de estar 'ao alcance do maior número'», escreveu a arquitecta Ana Tostões em 2005, num texto de homenagem. «Referenciado à moderna Arquitectura Brasileira e à figura de Le Corbusier, iniciou a sua carreira comprometido com 'a sagrada missão de construir racionalmente casas no sentido de manter o equilíbrio da sociedade».

Considerado um dos mais importantes e influentes arquitectos da sua geração no Algarve, desenhou e construiu entre 1950 e 2002, cerca de quatrocentos edifícios na região, sobretudo no Sotavento algarvio – em Vila Real de Santo António (sua terra natal), Tavira, Olhão e Faro.

Foi um dos arquitectos homenageados em 2011, durante a iniciativa MGC- Moderno ao Sul que a Secção Regional Sul da Ordem dos Arquitectos promoveu e no âmbito da qual a sua arquitectura inspirou uma exposição que itinerou pelo Algarve.

No texto de apresentação da exposição, lia-se que “foi no ano de 1953 que o arquitecto Manuel Gomes da Costa chegou ao Algarve com uma bagagem teórica repleta de novos valores linguísticos, uma nova Arquitectura que rompia com os padrões “Português Suave” do tempo do regime.

Ao longo de mais de cinco décadas de trabalho árduo, perseverante e solitário, MGC projectou e construiu centenas de obras que, para além do programa habitacional mais corrente, teve também muita expressividade no âmbito do equipamento público, em que se destacam, entre outras, a Creche de Aljezur, a Colónia de férias de Alcantarilha, o Colégio da Nossa Senhora do Alto, a Capela de Santa Luzia (na foto) ou a Cooperativa Agrícola de Santa Catarina da Fonte do Bispo.

Fácil de reconhecer, o “estilo” Gomes da Costa evoluiu ao longo do tempo, desde uma linguagem próxima da “Escola do Porto” e dos mestres Brasileiros como Niemeyer, Reidy ou Vilanova Artigas (nos anos 50 e 60) para um estilo cada vez mais pessoal e livre no fim da sua carreira como Arquitecto (2002).

Em qualquer dos casos, em qualquer dos tempos, MGC sempre procurou uma Arquitectura informada que reflectisse com responsabilidade os valores do seu tempo, “leve, solta, democrática, humana, adaptada ao lugar e ao clima”, ao serviço e ao alcance do maior número.

Personagem singular, é talvez o maior representante da geração Moderna no Algarve pela excepcional qualidade e quantidade de trabalho numa região que, por demasiado tempo, se manteve fechada, cristalizada em dogmas tradicionalistas ou na cada vez mais florescente produção burguesa desenraizada.

A persistência e coerência do trabalho de MGC, desde o princípio da sua carreira, representam esse “espírito de missão” de equipar a sociedade para o futuro com os meios técnicos e linguísticos da sua época.

Grande parte destes edifícios do Período Moderno, da autoria de MGC, são testemunhos formais da realidade do séc. XX. Muitas obras foram já demolidas, arrasadas ou completamente deturpadas, revelando uma total inconsciência da importância deste Património porque é possível, através dele, estabelecer novas conjunturas, revendo‐se a continuidade da História através dessa lógica de análise do acontecimento individual.”


Na foto: Igreja de Santa Luzia, em Tavira. Foto de Ricardo Agarez