«O que interessa são os edifícios»
O historiador William J.R. Curtis participou no lançamento de uma edição brasileira da sua monumental «Arquitectura moderna desde 1900».

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Simone White, I am the Man

No segundo dia do seminário «Repensar Le Corbusier» (28 de Maio), o historiador, pintor, fotógrafo, crítico e escritor inglês William J. R. Curtis participou no lançamento de uma versão brasileira (Bookman, uma chancela da Artmed editora) do seu livro «Arquitectura moderna desde 1900», no Museu da Electricidade em Lisboa.

Parecendo marginal relativamente à importância, por exemplo, da sua própria comunicação no seminário, a existência do livro em língua portuguesa é um acesso directo ao ponto de vista deste bem-humorado investigador sobre o que significa a arquitectura.

Classifica-se como «autor itinerante que trabalha em muitos países», num texto de 2007 de apresentação do seu livro em língua castelhana. «Arquitectura moderna desde 1900» ocupou-o mais de 25 anos e teve três edições (1982, 1987 e 1996), sendo a última «uma grande transformação» da obra, «fruto de uma rigorosa autocrítica e de uma revisão completa» que levaram ao acrescento de sete novos capítulos e ao redesenho editorial que incluiu mais de 800 ilustrações. Uma nova secção incluía a arquitectura até meados da década de 90 do século XX.

Capela de Notre Dame du Haut, Ronchamp, uma das inspirações primordiais de Frank Gehry, sem a qual o Museu Guggenheim não teria sido desenhado
Imagem: FLC/VG Bild-Kunst, Bonn, 2007





Entre os aspectos da autocrítica «dei-me conta da simplificação excessiva da contribuição de Mies van der Rohe, de que não havia dito nada sobre a extraordinária qualidade de Erich Mendelsohn e praticamente nada sobre o papel de países como Portugal e Espanha».

Quando o livro surgiu em 1982, «assombrava-me ver com que facilidade uma tendência sem substância [arquitectura pós-moderna] podia colonizar as mentes dos professores e estudantes».

O livro foi concebido como uma forma de «desmistificar a arquitectura moderna, de salvá-la dos seus próprios mitos e defensores, de evitar as caricaturas criadas pelos seus inimigos e pelos seus partidários e, afinal, de expor as coisas em toda a sua complexidade».

No início da sua conferência no Museu da Electricidade, William J.R. Curtis disse que estava sempre a pensar em Le Corbusier mas que «é um pouco especulativo imaginar sobre como ele pode ser repensado. Podemos fazê-lo através de textos, fotos, lembrando-o fisicamente ou lembrando-nos de nada – afirmando a sua presença na nossa mente».

A arte da história

Um dos charmes de William J.R. Curtis é a boa disposição com que fala de coisas complexas com um tom de simplicidade sorridente. Outra, talvez mais substancial, é a forma como quer distanciar-se das ideias feitas. «[O livro] chegou a ser parte de uma identidade [minha] que respondia à necessidade de guardar uma certa distância em relação ao mundo académico, facilmente presa de modas intelectuais».

Diz ele que «o livro procura desocultar a complexidade do passado e torná-la inteligível. Não há lugar para o obscurantismo, as falsas teorias e o jargão».




Catedral de Chartres, França.
Os «maestros modernos [Corbusier, Wright, Mies, Aalto, Kahn] transformaram «as ideias básicas num novo sistema simbólico e formal, uma nova linguagem e uma expressão moderna»
Imagem: http://www.sunrisemusics.com/paris.htm






«Escrever história implica tanto usar a razão quanto a imaginação e todos os pressupostos têm de submeter-se a um certo cepticismo. As teorias têm o seu papel mas um bom livro, como um bom edifício, nunca é a simples manifestação de uma posição previamente adoptada», sublinha William J.R. Curtis.

«O meu trabalho não se vincula a nenhuma escola de pensamento em particular e, ainda que as teorias tenham um papel, ficam em segundo plano. Afinal de contas, a escrita da história é uma arte em si e quando um autor nos diz no prefácio de um livro que pertence a uma certa ‘escola’ intelectual, já sabemos que estamos a lidar com alguém que joga na segunda divisão».

A sua obra foi também «um passaporte internacional que abriu muitas portas» e lhe permitiu ter acesso a tantas geografias diferentes (Harvard, Queensland, na Austrália, Beirute, onde «quase perdi a vida num ataque com ‘rockets’», Ardèche, no sul de França) quantas as que ele procura mapear diligentemente no seu livro.

Frank Gehry disse-me
No seminário, William J.R. Curtis contou uma conversa com Frank Gehry, numa ocasião de apresentação do Museu Guggenheim. «Ele disse-me que duas das suas inspirações primordiais eram a Catedral de Chartres [século XII] e a Capela de Ronchamp [Capela de Notre Dame du Haut, 1950] de Le Corbusier. E acrescentou que nunca teria conseguido obter os espaços complexos e as geometrias curvas do museu de Bilbau sem o exemplo de Ronchamp.

Também [o arquitecto japonês] Tadao Ando falou a William J.R. Curtis do «impacto fundamental que sobre ele tiveram dois edifícios: o Panteão de Roma [originalmente do século I a.C.] e a Capela de Ronchamp, ambos descritos como ‘vazios de luz’. Que arquitectos mais opostos [poderíamos pressupor] atraídos pelo mesmo? Cada um foi capaz de encontrar algo distinto no mesmo exemplo histórico. Ronchamp tem mais de 50 anos mas isso não é nada no desenvolvimento da história das formas».

Foi por Ronchamp que William J.R. Curtis guiou por momentos a assistência – um momento de grande significado da história da arquitectura que consegue fazer com que «as pessoas encontrem coisas diferentes para (re)pensar a arquitectura a partir do mesmo objecto».

No referido texto de 2007, William J.R. Curtis afirma que «os ‘maestros modernos’ tinham uma extraordinária capacidade para transformar e metamorfosear o passado», como é o caso de Corbusier, «profundamente em dívida com a história» – tal como Frank Gehry e Tadao Ando se sentem inspirados quando examinam Ronchamp.

Esses maestros modernos [Corbusier, Wright, Mies, Aalto, Kahn] transformaram «as ideias básicas num novo sistema simbólico e formal, uma nova linguagem e uma expressão moderna».

«Eu diria que as melhores obras de arquitectura de qualquer tempo conseguem ‘viver’ em diferentes níveis; cristalizam uma realidade com todas as suas contradições culturais; adoptam uma posição em relação às obsessões do momento e apresentam-nos visões inovadoras de futuros possíveis. Mas também transformam os ensinamentos da arquitectura moderna anterior: ideias espaciais, conceitos estruturais e imagens (…) e talvez questionem a própria natureza da arquitectura se tiverem qualidades que transcendem o espaço e o tempo», diz o historiador.

Respigar o passado para ser moderno

«Ao longo da história da arquitectura moderna, os arquitectos convocaram com frequência ideias vanguardistas para criar o mundo de novo mas quando se tratou de dar forma real às ideias inevitavelmente remeteram-se às obras dos seus antecessores».

Para William J.R. Curtis, a «transformação inventiva de Le Corbusier» é «uma vasta obra de observações e imaginação, que resulta num encantamento mágico. Ele é obcecado por história, por toda a cultura antiga. Ele dizia: só tenho um mestre, o passado».




Pavilhão Philips na Exposição Mundial de Bruxelas em 1958, já destruído.
No seu trabalho, Corbusier não fez uma ruptura com a história como aparentam as suas maravilhosas propostas arquitectónicas. Recriou antes «os lugares de representação e glorificação do colectivo que estiveram na origem da nossa cultura»
Imagem: FLC/VG Bild-Kunst, Bonn, 2007







A arquitecta Marta Sequeira, que se prepara para defender, na Universidade da Catalunha, uma tese de doutoramento sobre a cobertura da Unidade de Habitação de Marselha (1945), afirma «que é comum a ideia de que existe uma ‘ruptura em relação à história’ na génese dos lugares públicos das cidade de Le Corbusier e de que os seus espaços preconizam uma separação entre o seu tempo e a experiência precedente».

Mas, na verdade, o arquitecto franco-suíço «não faz mais que recriar a espacialidade grandiosa e pitoresca dos lugares públicos da Antiguidade, os lugares de representação e glorificação do colectivo que estiveram na origem da nossa cultura e que constituem o âmago da nossa tradição: a praça pública grega e o fórum romano».

Marta Sequeira escreve que, «através de um apurado sentido histórico mas também de abstracção (…)», e contrariando «um enredado de ideias preconcebidas, demonstra-se que o lugar público de congregação de Le Corbusier do período imediatamente a seguir à Segunda Guerra não só não estabelece uma cisão com o passado histórico como constitui o testemunho da inabalável continuidade da criação humana ao longo de todos os tempos».

Le Corbusier passava longo tempo coleccionando fragmentos do passado, respigando imagens aqui e objectos ali, procurando o que o rodeava. «Na verdade», diz William J.R. Curtis, descubro nos seus desenhos esquemáticos as ideias que irá desenvolver mais tarde. É claro que para descodificar esses esquissos preciso saber o que significam as linhas que ele desenhou».

Outro respigador, Curtis vai buscar desenhos e apontamentos e tentar saber em que circunstância os fez Le Corbusier, podendo demonstrar que um desenho veio a tornar-se numa ideia para um projecto mais tarde.

Um dos legados de Le Corbusier fala-nos de como as nossas influências podem tornar-se vivas e actuantes a qualquer momento mesmo depois de terem sido soterradas com camadas de tempo, história e ilusão.



William J.R. Curtis: «O que conta são os edifícios e não as declarações teóricas, confusas e frequentemente pretensiosas de arquitectos e dos respectivos aduladores e críticos»
Imagem: http://blogdoalencastro.blogspot.com/2008/04/hiperinflao.html







O que interessa são os edifícios


’Arquitectura moderna desde 1900’ «examina uma transição e um ponto de inflexão importantes na história da arquitectura: o aparecimento da chamada ‘arquitectura moderna’. Este fenómeno é inseparável da modernização tecnológica e do processo de urbanização. Mas a arquitectura moderna nunca foi monolítica e não pode ficar enredada em termos simplistas como o ‘funcionalismo’ e o chamado ‘estilo internacional’».

Uma parte do livro contém capítulos sobre o passado mais recente (1980-1995). «Poderia dizer que atribuo muito mais importância ao que os arquitectos constroem do que ao que dizem. A arquitectura comunica em silêncio mas muitos arquitectos contemporâneos adoram fazer ruído».

«O que conta são os edifícios e não as declarações teóricas, confusas e frequentemente pretensiosas de arquitectos e dos respectivos aduladores e críticos», diz William J.R. Curtis.

A obra [«Arquitectura moderna desde 1900»] ocupa-se da «reconstrução do passado mas também insiste na presença dos edifícios (…) o que sugere que são os próprios edifícios que constituem a matéria primordial para o historiador de arquitectura».

«Os edifícios conferem materialidade aos mitos em formas e em espaços expressivos».

«Pensar e escrever a história implica uma oscilação constante entre os dados e a opinião, entre análises detalhadas e interpretações amplas, entre indução [raciocínio de que se retira uma conclusão genérica] e dedução», diz William J.R. Curtis.

«Vivemos em tensão crítica com o que foi o passado e tentamos manter à distância as ilusões e as decepções do nosso tempo. Não há nada mais restritivo e provinciano do que o presente».

Textos consultados:
- Carneiro, Marta Sequeira, «A cobertura da Unité d’ Habitation de Marselha e a pergunta de Le Corbusier pelo lugar público. Resumo da Tese de Doutoramento», 4 Abril 2008
- Curtis, William J.R., «La perspectiva de um historiador sobre la arquitectura moderna», tradução de Jorge Sainz, Janeiro de 2007







Índice
1 – Congresso 1948
2 – Carta de Atenas: quando nasceu era para todos
3 – Um país com vista para Le Corbusier
4 – Francisco Silva Dias: um ‘livro do destino’
5 – Um homem dos media
6 – «O que interessa são os edifícios»
7 – ‘Le Corbusier Arte da Arquitectura’ até 17 de Agosto + visitas guiadas
















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