Um homem dos media
Usou tudo o que tinha à mão para comunicar. A certa altura, começou a sentir-se mal na televisão
Para a investigadora e professora de arquitectura Beatriz Colomina, uma das conferencistas do seminário «Repensar Le Corbusier», não há dúvida de que «Le Corbusier foi o mais influente arquitecto do século XX. Os seus edifícios estão entre as mais belas obras da arquitectura moderna».
Mas foi igualmente um grande comunicador. «Usou tudo o que tinha ao alcance para comunicar: jornais, artigos, livros, conferências, exposições, rádio, filmes e TV. Foi o primeiro arquitecto a compreender na perfeição os meios de comunicação de massa».
Le Corbusier escreveu mais livros do que desenhou edifícios. Colomina enumera 79 livros, catálogos e panfletos; 511 artigos, 51 artigos científicos editados, inúmeras fotos, 29 anúncios, participação em 13 filmes mais 16 filmes amadores, 20 programas de rádio, 25 programas de TV e um arquivo.
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O quadro negro que usava nas suas conferências, onde desenhava, começou a ficar mal na TV. Beatriz Colomina afirma que «Corbusier deixou de entender o modo de funcionamento da televisão» Imagem: FLC/VG Bild-Kunst, Bonn, 2007
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Nenhum exagero em dizer que a escrita está à altura da sua arquitectura. Tal como o historiador de arquitectura William J.R. Curtis chamou a atenção durante o seminário - um esboço, uma ideia remota podia muitos anos mais tarde percorrer o seu caminho até se transformar numa obra arquitectónica - Le Corbusier reciclou vezes sem conta os seus pensamentos escritos, voltando atrás, acrescentando, cortando, aperfeiçoando e, por vezes, fazendo-o como se recuperasse no tempo presente um remoto pensamento interrompido.
Le Corbusier olhava para os livros e artigos como séries, compilando-os para chegar às obras completas – da mesma forma que o fez com projectos e edifícios. «Livros e artigos foram uma parte íntima da sua prática arquitectónica», afirma Beatriz Colomina.
Antes do desenho, a palavra. Criou com Amadée Ozenfant e o poeta Paul Dermée a revista «L´Esprit nouveau - revista internacional de estética» (1919, com o primeiro número a ser publicado em Outubro de 1920 e o último em 1925), pela qual não passava só o prazer de escrever. Colomina diz que «a revista foi um instrumento fundamental para construir uma clientela para as suas obras».
«A escrita abre a possibilidade de uma encomenda que, depois, legitima a escrita». Ele publicava artigos e desenhava projectos, projectos que eram solicitados pelos escritos. «Esta espiral de eterno retorno conduzia os escritos às encomendas, mas também aos edifícios do passado. Le Corbusier movimentava-se, ao mesmo tempo, entre a revisitação do passado e do presente. As mais recentes inovações são, paradoxalmente, legitimadas por estarem ligadas às já realizadas», afirma a investigadora espanhola.
É o caso da Villa Savoye, em Poissy (1928), França, pensada como uma residência de veraneio, expondo a sua reflexão sobre a questão da habitação de modo tão eloquente quanto ele a escreveu: «Quando criámos ‘L´Esprit nouveau’ eu tinha dado à casa a sua importância fundamental, qualificando-a de ‘máquina de habitar’ e exigindo assim dela uma resposta total e impecável a uma questão bem posta. Programa exclusivamente humano, que repunha o homem no centro da preocupação arquitectónica».
Le Corbusier vociferava contra o ensino escolar que não incluía preocupações com a habitação. «Nenhuma atenção dada àquilo que faz a vida de todos os seres: o quotidiano, esses momentos e essas horas passados dia após dia, desde a infância até à morte, em salas, em espaços quadrangulares e simples que podem ser emocionantes e que constituem, de facto, o teatro primordial em que a nossa sensibilidade evolui».
A bela Villa Savoye é essa máquina que expõe os famosos cinco pontos da nova arquitectura: planta livre da configuração estrutural, possibilitando diversidade no espaço interno; casa assente em pilares, elevando a habitação acima do solo; cobertura da edificação com jardins; disposição da fachada independente da configuração estrutural, com possibilidade de máxima abertura para paredes externas em vidro; janelas que cortam toda a extensão do edifício, permitindo grande iluminação e vistas panorâmicas para o exterior.
Foram inovações que tiveram tanto impacto, que ainda hoje são estudadas aprofundadamente. Mas «a modernidade da Villa Savoye é antiga», diz Colomina, remetendo para o próprio Le Corbusier: «A arquitectura árabe dá-nos uma preciosa lição (…) é porque andamos, porque nos movemos que podemos ver a arquitectura a desenvolver-se. Trata-se de um princípio contrário à arquitectura barroca, concebida sobre o papel em redor de um ponto teórico fixo. Eu prefiro o que nos ensina a arquitectura árabe».
A frase explica uma das ideias fortes das suas vida e obra, a ideia de passeio e de fruição dos espaços.
Escola Secundária Padre António Vieira, em Lisboa. Ruy Jervis Athouguia
desenhou-a de forma a que os alunos e professores tivessem, em permanência, uma panorâmica da cidade dentro da sala de aula. «É um momento em que a arquitectura moderna se monumentaliza e uma obra maior do século XX», disse o arquitecto Ricardo Carvalho, numa visita guiada ao local
Imagem: Direitos reservados
Dentro de um ‘travelling’
Foi com «a ideia de passeio» que o arquitecto Ricardo Carvalho propôs que se sentisse a arquitectura da Escola Secundária Padre António Vieira – caso da cenográfica rampa que o autor Ruy Jervis Athouguia desenhou para ligar os andares da escola, que podemos percorrer como se viajássemos dentro de um ‘travelling’ e fôssemos, simultaneamente, a câmara de filmar e o espectador das imagens captadas.
Esta foi uma das duas visitas guiadas organizadas pela Secção Regional Sul a Lisboa a propósito do seminário «Repensar Le Corbusier», realizada a 7 de Junho. Ricardo Carvalho lembrou como «todas as salas de aula têm uma panorâmica sobre a cidade», permitindo continuar esse mesmo passeio até na aula, «embora hoje sobre uma cidade que Jervis Athouguia não imaginava que fôssemos capazes de construir».
Uma panorâmica limitada às vicissitudes da disciplina escolar, visto que um aviso à entrada diz que só os professores podem mexer nos estores – só eles podendo, aparentemente, autorizar que os alunos se ausentem para uma viagem à volta do mundo sem sair da sala.
Ricardo Carvalho, para quem Ruy Athouguia é uma «figura de primeira grandeza» dos que seguiram os princípios universais da linguagem arquitectónica moderna, destacou as escolas construídas nas décadas de 50 e 60 do século XX em Alvalade (escolas primárias Teixeira de Pascoaes e do bairro de São Miguel e a Escola Padre António Vieira), além, claro, da grande obra de referência de Lisboa nos anos 50 (Bairro das Estacas, de parceria com Sebastião Formosinho Sanchez) «com os seus edifícios a pairar sobre um jardim contínuo que corre sob eles», como descreve num texto.
’Silêncio aristocrático’
Todas as formas de escrita a que Le Corbusier deitou mão – cartas, manifestos, ensaios, panfletos, livros, catálogos e outros – culminaram na monumental obra completa de sete volumes, concebida pelo próprio quando andava pelos trinta anos de idade. O primeiro volume foi publicado em 1929, quando tinha 42 anos e o último em 1969, cinco anos após a sua morte, já publicado pelos seus colegas.
Beatriz Colomina diz que escrever sobre arquitectura histórica cria a possibilidade da nova arquitectura e de um quadro para a ler. «Não é que Le Corbusier escrevesse sobre a sua arquitectura, ele escrevia a arquitectura».
Le Corbusier rodeado da sua colecção particular em 1931.
O arquitecto, conhecedor da história, preparou cuidadosamente a publicação do seu legado. Mas não evitou que o meio de comunicação mais volátil e superficial, a televisão, tivesse perdido grande parte do seu património. Para quê guardar coisas que superam a espuma dos dias?
Imagem: FLC/VG Bild-Kunst Bonn, 2007
Neste sentido, enquanto Le Corbusier escreveu a sua história, legando aos estudiosos a forma como queria que encontrassem os elementos da sua própria investigação, Athouguia, «é o arquitecto em que se encontram os grandes temas da arquitectura moderna, mas sem grande elaboração teórica».
«Isso terá contribuído para ter sido esquecido por longo tempo», disse Ricardo Carvalho. «No seu silêncio aristocrático, terá sido prejudicado» até investigadores mais recentes recolocarem o seu trabalho de grande sensibilidade num lugar de destaque merecido.
A Escola Padre António Vieira não é só «o momento em que a arquitectura moderna se monumentaliza» em Portugal, nas palavras de Ricardo Carvalho, é como «Ruy Athouguia, considerando, de algum modo, a escola uma cidade, desenha uma arquitectura de olhar lírico e sensibilidade poética, com ambientes completamente diferentes» que coexistem insuspeitamente uns ao lado dos outros.
Por exemplo, junto ao refeitório da escola há um pequeno jardim onde se pode comer e conviver ao ar livre; as actividades exteriores (campos de jogos, recreios) são hierarquizadas pela proporção dos espaços e pela sua colocação precisa no desenho geral; há dezenas de vistas de profunda beleza, estando no exterior do edifício; ou no interior a olhar cá para fora, onde nunca parecemos estar dentro de Lisboa, mas num recanto em que a fruição da luz e da natureza nos é proporcionada sem esforço aparente.
Desenhar após fotografar
Beatriz Colomina afirma como é claro que «para Le Corbusier o mundo da comunicação não é secundário em relação ao da arquitectura construída. O mundo da escrita não é secundário em relação ao mundo da arte (…) é precisamente na forma de comunicar as suas ideias que ele vestiu a identidade de artista moderno».
O desenho teve um papel fundamental na apropriação por Le Corbusier do mundo exterior [usar auto-retrato dele para imagem]. Mas muitos dos desenhos, nota a investigadora, são feitos depois de fazer fotografias ou de usar reproduções de obras de arte e postais ilustrados – e , na verdade, quer os desenhos quer as experiências arquitectónicas são concebidas de um modo fotográfico
A fotografia (conservou meio milhar de fotos tirada apenas entre 1907 e 1912) foi parte de um íntimo processo de produção da arquitectura. Inúmeras fotos são encontradas quer no início, quer no fim do trabalho. «Este processo começa, muitas vezes, com fotos como as que tirou nas suas viagens, que depois se tornaram em esboços e estes esboços em projectos».
Se andar «cria uma diversidade no espectáculo que se abre perante os nossos olhos», como disse Le Corbusier na obra «Vers une architecture», e a visão é um instrumento de gravação [dos quadros que vamos apanhando] «a janela é, sobretudo, comunicação. Ele, repetidamente, impõe a ideia de uma janela ‘moderna’, a janela horizontal, a janela panorâmica» ligada à realidade dos novos media, «máquinas que permitem abolir o tempo e o espaço».
O habitante é o coreógrafo da casa
Como não interessar-se pelos filmes? «Os olhos modernos movem-se. Nos textos de Le Corbusier, a visão está sempre ligada ao movimento, ao ‘passeio arquitectónico’. O ponto de vista da arquitectura moderna nunca é fixado (…) mas está sempre em movimento».
O corredor da Escola Padre António Vieira desenhado por Ruy Jervis Athouguia podia estar fixo se o conseguíssemos ver transversalmente, mas para quem o percorre, é como se o corredor andasse connosco. «São imagens como estruturas construídas» diz Colomina.
São, como ele diz, «paredes de luz», quer dizer, «as paredes que definem o espaço já não são estruturas sólidas pontuadas por pequenas janelas mas foram desmaterializadas, reduzidas com as novas tecnologias construtivas e substituídas por extensas janelas, superfícies de vidro que definem o espaço», diz Colomina. «As janelas tomam conta das paredes como se fossem ecrãs de cinema». Na casa, máquina de habitar, desenrola-se um espectáculo que a deslocação do observador proporciona sempre na ânsia de descobrir o próximo pormenor.
No caso da Villa Savoye, Le Corbusier descreveu-a como uma «caixa no ar», dizendo Colomina que ela «pode estar em qualquer lugar. Num certo sentido, a casa é imaterial. A casa não é simplesmente construída como um objecto material a partir do qual é possível obter um conjunto de vistas. A casa é uma série de vistas coreografadas pelo visitante, tal como um realizador faz uma montagem de um filme ou um curador organiza pinturas numa galeria (…) A casa é um museu do século XX».
«Peço desculpa, não estou de acordo»
«Para um homem que sempre tentou atrair o máximo de audiência, a televisão nos inícios da década de 50 estava para lá do irresistível». Mas este fascínio «começou a esmorecer até se transformar em desinteresse e mesmo desprezo», à medida que lhe escapava das mãos a mínima possibilidade de controlar o modo como podia comunicar.
«Nos anos 60», diz Beatriz Colomina, «ele sentia-se completamente abusado pela televisão, rejeitando a maior parte das ofertas para aparecer», passando a aceitar os convites que não exigiam a sua presença, apenas a da sua arquitectura.
Colomina diz que Corbusier deixou de entender o modo de funcionamento da televisão, invocando que «nos programas ele usava a mesma técnica que desenvolveu para as suas conferências, muitas vezes desenhando as suas ideias num quadro negro».
Acrescenta a investigadora que lhe faltava o à vontade de arquitectos que lhe sucederam como Philip Johnson que, «tal como J.F. Kennedy e Andy Warhol era feito para [aparecer] na televisão» e que Le Corbusier «parecia rígido [stiff]» no ecrã.
Beatriz Colomina conta que, em 1953, numa carta à BBC, Corbusier escreve: «Peço imensa desculpa, mas não estou de acordo com a televisão. Não quero fazer uma conferência de arquitectura ou de urbanismo em cinco segundos, é uma coisa fatigante e aborrecida (…) é melhor abster-me se é para pregar diante de quatro milhões de incompetentes. Já não tenho idade para esse tipo de cruzadas».
«Rígido», que também podemos entrever como severo, resoluto, firme, resistente, pouco fluído e desconfortável, não remeteria para o conflito insanável do espectáculo que a televisão promete da forma mais ‘natural’ mas feito através de mecanismos tão invisíveis quanto rígidos, como o de que é preciso ‘falar simples’?
Colomina diz que ele já não controla o meio, da mesma forma que o fazia em filmes, revistas ou livros. Entre 1950 e a data da morte, recebeu pelo menos 56 convites para participar em programas de televisão, havendo evidência de ter aparecido em mais de 25 programas.
Colomina acrescenta, no seu trabalho de investigação, que «paradoxalmente, é na televisão [que está] o mais frágil dos registos» do seu trabalho. Há na Fundação Le Corbusier objectos tão anódinos como conchas que ele apanhou na praia mas não há gravações dos seus programas de televisão dos anos 50 e 60, tal como nos registos das próprias empresas emissoras» – um esplendor exemplar da fragilidade autofágica da televisão.
Pelo contrário, Corbusier armazenava tudo, «tendo decidido muito cedo cada traço de si e do seu trabalho que devia ser guardado»: correspondência, contas de electricidade, postais, documentos legais, fotos, inúmeros objectos, revistas, livros, recortes de jornais e uma infinidade de materiais pertencentes à Fundação com o seu nome – onde há 32 volumes do seu arquivo com 32 mil desenhos de arquitectura, urbanismo e mobiliário ou 73 cadernos de apontamentos com esboços feitos entre 1914 e 1964 entre os 450 mil documentos existentes.
Textos consultados:
Colomina, Beatriz, «Vers une architecture médiatique», Le Corbusier. The Art of Architecture, Vitra Design Museum (em colaboração com The Netherlands Architecture Institute e Royal Institute of British Architects), 2007
Le Corbusier, Conversa com os estudantes das escolas de arquitectura, Edições Cotovia, 2003
Índice
1 – Congresso 1948
2 – Carta de Atenas: quando nasceu era para todos
3 – Um país com vista para Le Corbusier
4 – Francisco Silva Dias: um ‘livro do destino’
5 – Um homem dos media
6 – «O que interessa são os edifícios»
7 – ‘Le Corbusier Arte da Arquitectura’ até 17 de Agosto + visitas guiadas
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