Foi um ‘livro do destino’
Francisco Silva Dias, hoje provedor da arquitectura da Ordem dos Arquitectos, diz que o conteúdo do livro (relatório da comissão executiva, teses, conclusões e votos) «foi uma espécie de Livro do Destino porque todos os problemas que viriam a enfrentar estavam lá apontados».



Silva Dias defende que o contexto político e social do país do final da Segunda Guerra «encontra no microcosmos da arquitectura, dos arquitectos e do congresso, com a nitidez das imagens reduzidas, um reflexo fiável».






Capa da versão original do livro do primeiro congresso nacional de arquitectura .
O arquitecto Francisco Silva Dias, hoje provedor da arquitectura, afirma que a reunião de 1948 fundou a investigação na prática profissional e lançou os estudos da construção racional da habitação Imagem: Ordem dos Arquitectos






Francisco Silva Dias é da opinião que, nos últimos 50 anos, houve duas vezes em que «a classe assumiu atitudes colectivas e demonstrou capacidade de concretização de tarefas de grande complexidade»: no primeiro congresso (1948) e no Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa (1955).

Mesmo os temas escolhidos para o congresso de 1948 («A arquitectura no plano nacional» e «O problema português da habitação») demonstram uma «sabedoria», porque as conclusões e votos «apontaram certeiras linhas de rumo que permitem hoje passar, num empolgante exercício, da futurologia de então à visão histórica de hoje».

Mais: o congresso pode ser visto «como introdução da investigação na prática profissional: com a proposta de realização de um estudo estendido a todo o país envolvendo os conceitos de tradição e regionalismo, foram lançados os germes do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa». E começaram os estudos da «construção racional da habitação».

Mais de meio século depois, «a democratização do ensino levou às escolas de arquitectura do país um grande número dos mais aptos (…) e o Programa Erasmus vence fronteiras e estabelece igualdades». A população «sente como adquirido o direito à arquitectura».

Dois objectivos por atingir: a criação de um museu da arquitectura moderna portuguesa e a criação de um instituto que defina as bases do problemas do urbanismo e da habitação.



Francisco Silva Dias fala, ainda, na questão de «uma maleita que percorre este mais de meio século desde o congresso» – a «ditadura do parecer’, quantas vezes censório e arbitrário», quando em 1948 já se reclamava que os arquitectos tivessem «o direito de defender as suas concepções antes de um indeferimento definitivo».

Para justificar este ponto, Silva Dias socorre-se da sua experiência como provedor: «mais de metade das queixas (…) são do âmbito das relações população-administração autárquica ou da interpretação subjectiva e prepotente dos agentes licenciadores».

Importante é, também, a reflexão que Silva Dias faz sobre como se exerceria a «censura» sobre a arquitectura: «São escassos os discursos da ditadura [de Salazar] sobre a arquitectura, mal deixando vislumbrar linhas de rumo que conduzissem ao exclusivo da expressão nacionalista. E conhecem-se atitudes de tolerância ou talvez de indiferença em relação à modernidade». Diz Francisco Silva Dias que é provável que «a censura viesse dos escalões intermédios da governação e fosse alimentado por ‘académicos’ cujo estatuto social próximo do poder influenciasse os decisores».

E «os conservadores mais notáveis apresentaram-se discretos e não terão sequer confrontado por comunicações ou diálogo o pensamento moderno que dominou o evento. A defesa de uma arquitectura nacional de cariz político apresentou-se esporádica e foi ostensivamente olvidada».

Silva Dias recorda que «até o discurso de abertura do presidente da comissão executiva do congresso, Cottinelli Telmo, não é panegírico» para os governantes presentes. Foca-se no «esforço caloroso e honesto dos arquitectos para o bem comum, ideia que reforça no discurso de encerramento».




Índice
1 – Congresso 1948
2 – Carta de Atenas: quando nasceu era para todos
3 – Um país com vista para Le Corbusier
4 – Francisco Silva Dias: um ‘livro do destino’
5 – Um homem dos media
6 – «O que interessa são os edifícios»
7 – ‘Le Corbusier Arte da Arquitectura’ até 17 de Agosto + visitas guiadas
















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