6/8/2007
Diogo Seixas Lopes na Conferência Internacional
Em 1972 a actriz e activista Jane Fonda deslocou-se ao Vietname do norte e fez-se fotografar com os soldados inimigos do seu país, o que lhe valeu a alcunha de «Hanoi Jane» e a perturbante acusação de traidora. Dois cineastas resolveram fazer um filme sobre uma única dessas fotografias. Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin realizaram o filme de 51 minutos «Carta para Jane (1972), uma arenga sobre uma única fotografia da presença de Jane Fonda em Hanoi. A actriz e activista está em primeiro plano com um olhar compungido e, em segundo plano, olhando para o chão, aparece a figura de um ‘vietcong’. Os realizadores tinham feito, muito recentemente, o filme «Tudo está bem [Tout va Bien]», com Jane Fonda. Cara de Hollywood «Carta para Jane» é uma crítica à iconografia de Hollywood e a tese é a de que o olhar de Jane é uma tipificação da imagem fabricada pela indústria dos filmes americanos e a ideia de que olhar sofredor de Jane é uma encenação e o rosto em segundo plano exibiria uma aproximação bastante maior à «verdade». De acordo com Diogo Seixas Lopes, moderador do último painel da conferência «O Coração da Cidade» ( «Cidades Instantâneas, Centros Instantâneos?»), o filme «tem o mérito de se dispor a olhar para uma imagem durante quase uma hora. É uma atitude que, às vezes, precisamos ter como metodologia de trabalho». Este último painel procurava evidenciar (e historiar) os locais que cresceram repentinamente em termos de população, fossem eles postos coloniais avançados, centros económicos e mercantis ou cidades-templo. Muitos acabaram por ser cidades, outros desapareceram tão rapidamente como os objectivos que queriam cumprir. «Brasília e Chandigarh [na Índia] combinaram a visão política com a visão urbana do arquitecto», dizia-se na introdução a este painel. Seixas Lopes escolheu a foto de «Hanoi Jane» e a referência ao filme de Godard e Gorin como uma de duas premissas para falar sobre o papel dos arquitectos no meio das transformações em curso e para tentar responder se as novas cidades instantâneas «são uma mistura de chavões da globalização e uma caricatura de futurismo ou se estão a produzir modelos de cidade originais e inovadores». Sem redenção Ao tentar perceber o significado político de uma imagem destas – quando a Guerra do Vietname estava no auge – Godard e Gorin concluem, segundo Seixas Lopes, que «Jane Fonda não tem a mínima consciência crítica, histórica e política do momento que está a viver, permitindo-se ser objecto de todas as manipulações». A conclusão é a de que «não há esperança nem redenção possíveis em determinados momentos restando apenas formular novas questões para novos problemas». A outra premissa escolhida por Diogo Seixas Lopes tem a ver com as mudanças que a industrialização trouxe há cerca de 150 anos. «Ela produziu cidades instantâneas e as regras para os criadores, onde se incluem os arquitectos, mudaram». «Os criadores têm ou não consciência crítica do momento que vivem e, sem têm, é uma consciência política?»; se não têm, limitam-se a ser uma «Hanoi Jane» da arquitectura? «Estes problemas configuram a grandeza e a miséria da arquitectura contemporânea», disse Diogo Seixas Lopes. Cidades instantâneas na Trienal: Paisagem e «futurismo» na mesma sessão http://www.oasrs.org/conteudo/agenda/noticias-detalhe.asp?noticia=657 Fonte: www.oasrs.org
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