6/3/2007
Mark Wigley na Conferência Internacional
No primeiro dia da conferência da Trienal de Lisboa, o arquitecto e professor da Universidade de Columbia, Mark Wigley, veio dizer que «houve um recuo entre palco e bastidores nas cidades. Hoje tendemos todos a estar no palco». O tema era «realidade e cenografia» e a ideia de partida a de que cidade é o palco de uma representação, «onde desempenhamos um determinado número de papéis». Mas isso está em mudança: «O palco deixa de ser predominantemente o teatro ou a cidade e sim o cenário do programa de televisão ou o quarto do adolescente transmitido pela Internet». No apinhado Teatro Camões, em Lisboa, o neozelandês Mark Wigley, director da Escola de Arquitectura da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, foi tão hábil com as palavras como provocador. Estamos num cenário… Primeiro situou a plateia: «Nós não estamos em Lisboa, estamos num cenário, num espectáculo». Como estrela temporária, em pé no palanque, tomou conta do palco e reivindicou um distanciamento em relação aos arquitectos para se poder pensar. Afirmou que «os arquitectos só conversam uns com os outros, e só falam sobre arquitectura, não têm fins-de-semana, sacrificam tido pela arquitectura e às vezes conversam com os arquitectos mortos e há uma grande conversa com os arquitectos mortos sobre a possibilidade da arquitectura como verdade». «Se é tudo cenografia, é como se fosse uma história de perda de verdade», disse. Ao constatar, como ponto de partida, que a cidade «é e sempre foi um palco particular para um espectáculo no qual o arquitecto representa um papel», Mark Wigley dedicou-se a tentar perceber onde estão as diferenças hoje em dia. … a executar uma performance… «Acho que podemos dizer que, nas cidades, houve uma mudança em relação ao palco e aos bastidores. Houve um recuo dos bastidores e um crescimento do palco, por assim dizer. Estamos todos no palco e há vários espectáculos simultâneos a decorrer. A tecnologia permite uma performance múltipla e simultânea». Se a quantidade de espectáculos «aumentou desmesuradamente», talvez os arquitectos possam dedicar-se a reflectir sobre «o que significam os gestos e comportamentos banais das pessoas». Mark Wigley desafiou, também, a plateia e os oradores do dia a falarem sobre o tema da Trienal, referindo-se aos outros actores que tinham passado pelo palco do Teatro Camões (os arquitectos Thom Mayne, Carrilho da Graça, Jamie Fobert e Souto de Moura e a socióloga Saskia Sassen): «Estamos aqui há horas e a palavra ‘vazios’ não apareceu em nenhuma discussão. Vocês cobraram bilhetes para as pessoas virem até aqui ouvir falar de uma palavra que nunca vai ser dita? Este assunto é tão importante que não pode ser falado?» …e a construir possibilidades Segundo Mark Wigley, «a cidade está tornar-se mais densa em todos os aspectos o que quer dizer que a questão dos vazios se torna mais premente». Sobre o papel da arquitectura, salientou que «ela tem solidez porque negoceia com a falta de substância, com o vazio». Por outro lado, «a dramatização [da vida] precisa de vazios» e, ao mesmo tempo, «os arquitectos querem ocupá-los». Confessando-se adepto dos arquitectos «que pensam contra a sua própria disciplina», Mark Wigley fez referência à ideia conceptual dos vazios. «O vazio não é uma questão de pensar em algo vazio. O vazio nunca está vazio, antes é o início do pensamento, da substância. Se estivesse vazio, era nada. O vazio é um convite à possibilidade de uma experiência». Nas cidades, «o vazio é uma infra-estrutura, é um mecanismo do seu funcionamento estrutural. Para os arquitectos, acho que pôr perguntas é mais interessante do que oferecer respostas», no sentido de construir possibilidades.
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