Hedonismo e erudição
O arquitecto e ensaísta Guilherme Wisnik diz que Niemeyer «tem uma vocação decididamente autoral, desenhando projectos que se tornam rapidamente identificáveis pela ênfase plástica e pela liberdade ao tratar a relação entre volumetria e estrutura» (1).
A permanente referência às mulheres na sua vida também serve para fazer o balanço de que o «amor pela linha curva (…) frequentemente esconde a inteligência construtiva de muitos dos seus projectos», pelo que não deve ser escamoteada e excessivamente propalada como um fim em si. Quer dizer, há mais pensamento e erudição por detrás do hedonismo popular.

Wisnik fala de dois dos seus projectos, o Banco Boavista (1946) no Rio de Janeiro e o edifício Copan (1951), em São Paulo. No primeiro caso, «o desenho ondulante de uma extensa parede de tijolos de vidro garante, pela própria geometria, a rigidez da superfície transparente, evitando a necessidade de amarrações verticais ou horizontais».
No segundo, «o volume serpenteante, além de dialogar com o formato sinuoso do lote, favorece a estabilidade em relação aos esforços do vento. O que quer dizer que raramente podemos encontrar a mera gratuidade em suas ‘formas livres’».
As formas livres também não obedecem ao convicto comunismo de Niemeyer. Wisnik diz que ele «sempre dissociou a convicção política da prática arquitectónica (…) a sua intuição poética não obedece ao materialismo histórico que o empurraria na direcção de uma expressividade tectónica».

Em vez disso, as formas que desenha «tendem sempre à quietude, à leveza, sublimando os grandes esforços estruturais» como se o esforço humano da construção pudesse ser diluído na matéria, tal como o esforço para construir as relações humanas, que tanto preza, pudesse ser matéria integrada na cumplicidade íntima das pessoas.
Mas desdramatizar a influência das curvas é não apreciar completamente as mulheres.
(1) Wisnik, Guilherme, Niemeyer: Leveza não Tectónica, Opúsculo 9, Porto, Dafne Editora, 2007
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Niemeyer membro honorário da Ordem dos Arquitectos
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