Da Pampulha à Ditadura
Eis o que lhes devia dizer sobre a minha arquitetura feita com coragem e idealismo, mas consciente de que o importante é a vida, os amigos e esse mundo ijusto que precisamos melhorar
Oscar Niemeyer, As curvas do tempo. Memórias
Foi Kubitschek que, querendo construir um «bairro elegante» numa área no norte de Belo Horizonte, convocou Niemeyer para projectar o Conjunto da Pampulha (1940), primeiro traço individual na paisagem aos 33 anos de idade. «Era a oportunidade de contestar a monotonia que cercava a arquitectura contemporânea», o que Niemeyer fez usando o que mais gostava: «A curva me atraía. A curva livre e sensual que a nova técnica sugeria e as velhas igrejas barrocas lembravam».

A ideia de que uma igreja (Igreja de São Francisco de Assis de Belo Horizonte) pudesse ser «sensual, bela, graciosa e lógica» não ocorreu à hierarquia católica, que se recusou a benzer o templo, desconhecendo que a sensualidade já é abençoada por natureza.
A par de Le Corbusier e outros afamados, Oscar seria convidado a apresentar ideias para a nova sede das Nações Unidas e o seu projecto viria a ser o preferido, antes de iniciar a aventura fundadora de criar uma capital nova para o Brasil num sítio onde só havia terra, elementos atmosféricos à solta e a ideia grandiosa de Kubitschek. Pelo meio tinha ficado o desenho do Conjunto Ibirapuera em São Paulo (1951) ou a sua residência no Rio, a Casa das Canoas (1952), que passou a fazer parte da actual Fundação Niemeyer.
Se Oscar fosse só arquitectura e a arquitectura só o desenho, a história da reunião de talentos que convocou para trabalhar em Brasília não tinha lugar. Além de uma equipa de 20 arquitectos, chamou um médico, um jornalista, um advogado, um guarda-redes do Flamengo e «outros de profissões indefinidas» e de rendimentos mais que incertos. Este «dream team» tornou «a conversa mais versátil, o trabalho mais completo e o grupo mais coeso e amigo».

Entre o grupo de dezenas de residências, edifícios comerciais e administrativos desenhados e construídos no espaço de um mandato presidencial, Niemeyer projectou o Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente, e o Ministério da Justiça (1957), a Catedral, a Praça dos Três Poderes, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto (1958).
Com Lúcio Costa, aplicou os princípios da arquitectura modernista, o edificado assente nas elegantes e poderosas colunas que deixavam vida para os peões, largas avenidas e distâncias que deviam ser vencidas pelo automóvel e uma mistura de classes sociais em busca do ideal igualitário.
Niemeyer apanhou a transição para a ditadura do Brasil quando estava na Europa e volta em 1964 ao Brasil para ser interrogado sobre se mantém que apoiava Cuba e os povos da América, Ásia e África por desenvolver. Apoiava! Com o tempo, o cerco ao seu trabalho foi-se apertando até um ponto em que o arquitecto de Brasília não queria tolerar, pelo que saiu do país, «com as minhas mágoas e a minha arquitectura».
Niemeyer: nome de um século
Niemeyer membro honorário da Ordem dos Arquitectos
Hedonismo e erudição
Regresso ao Brasil