Niemeyer: nome de um século




Foto: José Manuel Rodrigues

Oscar Niemeyer segurando um número do JA, aquando de uma visita em 2006 organizada por José Manuel Rodrigues e Ricardo Carvalho e que contou, entre outros, com Leonor Cintra Gomes, José Adrião e João Belo Rodeia: «O importante é a vida», diria o arquitecto enquanto recebia os portugueses, conversava e desenhava ao mesmo tempo.


De um traço nasce a arquitectura. E quando ele é bonito e cria surpresa, ela pode atingir, sendo bem conduzida, o nível superior de uma obra de arte
Oscar Niemeyer, «Como nasce a arquitectura»


No ano em que Niemeyer nasceu, o aventureiro Shackleton iniciou uma das suas expedições para quebrar o gelo da Antárctica e Benfica-Sporting jogaram o primeiro jogo para os olhos privados dos espectadores porque não havia televisão.

Niemeyer podia ser Oscar Ribeiro Soares, denunciando as origens portuguesas ou Oscar Ribeiro de Almeida, desenhando antes uma linha de influência árabe. Ficou Niemeyer, uma força do apelido alemão, nascido na Casa das Laranjeiras, no Rio de Janeiro em 15 de Dezembro de 1907.

Os primeiros 20 dos 100 anos de vida que se assinalaram sábado foram passados nas Laranjeiras, rodeado de familiares que compartilhavam uma robusta mesa de refeição, onde se sentavam avós, tios, irmãos e uma prima para poderosas comezainas.

Se bem que o Benfica-Sporting de 1907 e os que seguiram estivessem à distância, o futebol não passava despercebido para o jovem carioca tanto como o desenho de chávenas e estatuetas. Talvez pudesse ter envergado a camisola do grande Flamengo, porque recebeu um convite para calçar as chuteiras de treino deste clube que é quase da sua idade (tem 112 bem contados).



Com sede num café, paragens nos clubes Fluminense e Guanabara e poiso no prostíbulo da Laurinha Tinguassu, as noites terminavam em «pequena e inevitável orgia», como lembra no belo livro de memórias (1)
, talvez junto de algumas «ancas barrocas como preferíamos».

O casamento aos 21 anos, em 1928, com Anna Maria e a morte do avô, que tinha sido Procurador-geral da República e ministro do Supremo Tribunal Federal, iniciaram uma nova etapa da vida, mas a roda dos amigos e familiares, como um testemunho da farra, convívio e «invariável amizade», continuou sempre e foi-se depositando em netos, bisnetos e trinetos.

Com o casamento, veio o trabalho na tipografia do pai, a Escola Nacional de Belas Artes (formou-se em 1934) e a mudança para dois quartos apertados no Leblon, muito antes de Niemeyer se tornar a famosa referência da arquitectura moderna internacional.

Deambulando pelos recortes sombreados do Jardim Botânico, a família de Niemeyer «optimista com a vida e o mundo», mesmo sem dinheiro para quase nada, apreciava os verdes anos e definia-se em relação à vida como aventureira e pouco controlada, com os inevitáveis «momentos de folga e crise» das coisas que são feitas ao solavanco da descoberta.

Por exemplo, para saber o que haveria para lá do país da «arquitectura comercial», que o desgostava, Niemeyer trabalhou gratuitamente no ateliê do arquitecto e urbanista Lúcio Costa e do arquitecto e pintor Carlos Leão.



Além da «honestidade» que os caracterizava e das «belas mulheres» que saíam dos desenhos de Leão, «como eles aprendi a respeitar o nosso passado colonial, a sentir como são belas as velhas construções portuguesas, sóbrias, rijas, com suas grossas paredes de pedra ou taipa de pilão. E os telhados derramados a contrastarem com suas brancas paredes caiadas».

Foi já na companhia de Lúcio e Leão que Niemeyer terminou o curso de arquitecto. Lúcio, Leão, Niemeyer e outros arquitectos viriam a trabalhar no projecto de Le Corbusier para o novo edifício do Ministério da Educação e Saúde, impulsionado pelo respectivo ministro, Gustavo Capanema, cujo escritório o arquitecto Oscar frequentava assiduamente, convocado pelo governante.

O Ministério da Educação e Saúde (1943) apoia-se num sistema de grande pilares de betão deixando o edifício ‘suspenso’ para o trânsito dos peões, defronte do qual Niemeyer veio instalar-se para trabalhar e receber vezes sem conta uma grande turma: Além de Leão, o poeta e diplomata Vinícius de Moraes, o escritor Luiz Jardim, o arquitecto Galdino Duprat da Costa Lima, o vendedor Carlos Echenique, o frequentador de cabarés Walter Garcia Lopes (conhecido por Eça) e o neurocirurgião Paulo, irmão de Oscar, que dividia a sala de espera do seu consultório médico com o ateliê de Niemeyer.


Niemeyer filiou-se no Partido Comunista Brasileiro em 1945 e visitou Moscovo e outras partes da Europa ainda semi-destruídas levando no braço Eça e Duprat. São incontáveis as suas reflexões pessoais sobre a procura de uma vida mais «fraternal» e «justa» para todos como forma de torpedear a «descrença diante deste mundo absurdo».

Um pouco de absurdo era o que Niemeyer encontrava nos aeroportos em que não conseguia embarcar depois de se comprometer a viajar, deixando à sua espera a olhar o horizonte o deputado, governador e Presidente da República (1956-61) do Brasil Juscelino Kubitschek ou o comandante cubano Fidel Castro, entre outros.


(1) Niemeyer, Oscar, As Curvas do Tempo. Memórias, Rio de Janeiro, Editora Revan, 1999

Esquissos retirados de:
Niemeyer, Oscar, Conversa de arquiteto, Rio de Janeiro, Editora Revan, 1999
L'Architecture d'aujourd'hui, nº171, Boulogne-Billancourt, Jan-Fev 1974
Niemeyer, Oscar, A primeira cidade turística. Um projecto intemporal, s.n., s.d.


Da Pampulha à Ditadura

Niemeyer membro honorário da Ordem dos Arquitectos

Hedonismo e erudição

Regresso ao Brasil




Outros links:

Fundação Oscar Niemeyer

Concurso de fotografia

© OASRS 12/14/2007

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