Cidades instantâneas na Trienal
Paisagem e «futurismo» na mesma sessão
Dificilmente se podia pedir maior contraste entre as duas intervenções que concluíram a conferência «O Coração da Cidade». O arquitecto japonês Kengo Kuma, calmo e fleumático, arrastou um grupo de fãs; o checo colérico Jan Kaplicky arrastou desagrado.
Dizer que a Grande Muralha da China é uma espécie de cidade instantânea (as cidades instantâneas eram o tema do último painel da conferência de abertura da Trienal de Arquitectura) parece arrojado.
Para o arquitecto japonês Kengo Kuma, a Grande Muralha da China (na verdade, um colosso que junta várias muralhas distintas construídas ao longo de dois milénios com o ar de serem bem permanentes) é isso mesmo: uma cidade instantânea «porque a sua construção respeita e segue a paisagem em que está integrada».
Paisagem permanente
Muito aplaudido na plateia, Kengo Kuma subiu ao palco do Teatro Camões e afirmou que o conceito de «instantâneo» na Ásia tem uma base filosófica de raiz budista muito forte. Na sombra da Grande Muralha, num troço a norte de Pequim, o arquitecto japonês projectou a Casa de Bambu, integralmente construída com esta planta de crescimento rápido e de substituição prática e célere.
Porquê esta aproximação numa casa que mimetiza a Grande Muralha? «A arquitectura é temporária e a paisagem é permanente. O bambu é considerado um material frágil no Japão e na China mas eu gosto dessa fragilidade», disse Kengo Kuma.
Contudo, não tão frágil que inviabilize alguma presença. «Eu uso bambu da América do Sul porque o bambu asiático fende com facilidade». A Casa de Bambu tem uma fachada movível que se adapta ao movimento do Sol e que se abre à paisagem e penas de ganso a isolar as paredes.
Junto dos materiais
O trabalho de Kuma tem um vínculo forte ao paisagismo e as suas preocupações tendem a considerar que a arquitectura pode submeter-se à paisagem para que esta sofra o menor impacto possível. Mas também pretendem retomar uma certa tradição da arquitectura japonesa trabalhada pelas suas ideias.
Kengo Kuma não é só o arquitecto do bambu mas o homem da modulação dos materiais (madeira, pedra, plástico, vidro), do estudo das sombras e da luz, da pesquisa de respostas que eles podem dar em certas condições físicas ou da procura do diálogo com artesãos locais sobre as possibilidades de construção.
O Museu do adobe, um pequeno conglomerado geométrico de blocos para albergar uma estátua de uma divindade, parece exibir o que de mais notável Kengo Kuma exibe no seu trabalho: um conhecimento dos materiais e um pensamento sobre uma ideia particular de humildade perante a vida.
Omelete para biblioteca
Jan Kaplicky nasceu na antiga Checoslováquia. O caminho percorrido para chegar aos projectos realizados pela Future Systems (que este arquitecto dirige com Amanda Levete) deve parecer tão longo quanto os ecos distantes do mundo em que nasceu. A Future Systems foi criada em 1979 e desenvolveu um conjunto impressionante de algo que se pode definir como «arquitectura de tendência visionária».
A figura piramidal da Biblioteca de Praga (cidade natal de Kaplicky), um edifício de 45 metros de altura que alberga um sistema automatizado para 10 milhões de espécies bibliográficas, apenas manuseadas por máquinas antes de chegar aos leitores, parece uma grande omeleta derramada sobre o terreno onde está uma plataforma de mármore branco. «É como uma tenda de circo em forma de omeleta andante», disse Kaplicky – um edifício que marca o sítio onde se encontra.
A ambição para o edifício dos armazéns Selfridges, em Birmingham, também era criar uma marca arquitectónica forte, da qual irradiasse «a força capaz de regenerar» o local. A sua forma esguia e fluida pode, se quisermos ir por aí, fazer lembrar o contorno do corpo humano (que Kaplicky mostrou várias vezes na sua apresentação como fonte de inspiração).
Querido líder
O revestimento é feito de milhares de pequenos discos de alumínio, uma inspiração de um vestido de Paco Rabanne, cada qual dotado de um regime independente de controlo da luminosidade.
À medida que ia passando as imagens, Kaplicky irritou-se frequentemente porque em algumas ocasiões as imagens voltaram para trás. Ameaçou sair do palco e saiu mesmo perante o espanto da assistência.
Kaplicky começou a sua intervenção com várias imagens de ditadores. «Ainda temos este» (disse de Fidel Castro), «este que já matou milhões de pessoas» (o «Querido Líder» Kim Jong-Il da Coreia do Norte), «já despachámos este» (Saddam). Para compreender esta sequência foi preciso esperar pelo fim da palestra: «Consegui sobreviver à Segunda Guerra, ao nazismo, à Primavera de Praga, à queda do muro de Berlim, ao pós-modernismo. Consegui sobreviver a isso tudo».
Em Lisboa, contudo, Kaplicky, não conseguiu sobreviver a um pequeno diletantismo técnico (não saber como se opera um comando de slides). À distância, ameaçando deixar o palco a cada dois minutos, parecia um «Querido Líder».